Por: Dr. Rodrigo Brum em 17 de dezembro de 2025 • 7 minutos de leitura • Hematologia

A Leucemia promielocítica aguda (LPA) é um subtipo raro e distinto da Leucemia Mieloide Aguda (LMA), caracterizado por uma alteração genética específica que muda completamente a forma como a doença se manifesta e é tratada.
Apesar de ser potencialmente grave, a LPA é hoje uma das leucemias com maior taxa de cura, graças a terapias altamente direcionadas desenvolvidas nas últimas décadas.
O diagnóstico precoce e o início rápido do tratamento são fatores decisivos para o sucesso terapêutico. Por isso, conhecer suas características, sintomas e opções de tratamento é fundamental, tanto para pacientes quanto para profissionais da saúde que atuam no cuidado oncohematológico.
A Leucemia promielocítica aguda (LPA) é causada por uma translocação genética entre os cromossomos 15 e 17. Essa alteração leva à fusão dos genes PML e RARα, resultando em uma proteína anormal chamada PML-RARα, que bloqueia a maturação normal das células mielóides na medula óssea.
Como consequência, há um acúmulo de promielócitos anormais (um estágio imaturo dos glóbulos brancos) que substituem as células normais do sangue, causando anemia, trombocitopenia e neutropenia. Além disso, esses promielócitos liberam substâncias que alteram a coagulação, o que torna a LPA uma emergência médica.
Sem tratamento imediato, a LPA pode evoluir rapidamente e causar complicações hemorrágicas graves. Por isso, o reconhecimento precoce e o início do tratamento imediato com ATRA é crucial para evitar mortalidade precoce e alcançar a remissão completa.
A LPA possui características únicas que a distinguem de outros tipos de leucemia mieloide aguda, tanto do ponto de vista clínico quanto laboratorial. Enquanto a maioria das LMAs são tratadas com esquemas de quimioterapia intensiva ou com a combinação de Azacitidina + Venetoclax, a LPA responde de forma excepcionalmente eficaz a terapias diferenciadoras, que induzem a maturação das células leucêmicas em vez de simplesmente destruí-las.
Outra diferença importante está no perfil genético. A translocação entre os cromossomos 15 e 17 é um marcador diagnóstico exclusivo da LPA e define seu comportamento biológico e resposta terapêutica. Essa característica genética é o que permite o uso de medicamentos específicos que corrigem o bloqueio na diferenciação celular causado pela fusão PML-RARα.
No aspecto clínico, a LPA também se diferencia pelo risco aumentado de coagulopatia de consumo (CIVD), uma complicação grave que pode causar sangramentos espontâneos em qualquer parte do corpo. Esse risco torna o início precoce do tratamento com ATRA uma prioridade médica, mesmo antes da confirmação completa do diagnóstico laboratorial.
Além disso, o prognóstico da LPA é, em geral, muito mais favorável do que o de outras formas de LMA. Com o tratamento adequado iniciado prontamente a chance de cura atual pode chegar a mais de 90%.
Os sintomas da Leucemia promielocítica aguda são resultado da substituição das células normais da medula óssea por células leucêmicas e da alteração dos mecanismos de coagulação. O quadro clínico pode variar desde sintomas leves até manifestações graves e súbitas.
Os sinais mais comuns incluem:
A combinação de alterações no hemograma (anemia, plaquetopenia e etc) e distúrbios de coagulação deve sempre levantar suspeita de LPA, principalmente em pacientes jovens ou de meia-idade.
O diagnóstico é confirmado por exames laboratoriais e genéticos, incluindo os exames de medula e testesque identificam a fusão PML-RARα. O início do tratamento deve ocorrer assim que houver forte suspeita clínica, antes mesmo da confirmação final, devido ao alto risco de complicações hemorrágicas.
O tratamento da LPA é considerado uma das maiores conquistas da hematologia moderna. Ao contrário de outras leucemias, a LPA, atualmente, é tratada com medicamentos que promovem a diferenciação celular, levando as células leucêmicas a amadurecerem e perderem o comportamento maligno.
O ácido all-trans retinoico (ATRA) é uma forma de vitamina A modificada que atua promovendo a diferenciação dos promielócitos imaturos em células normais. Esse processo restaura o funcionamento normal da medula óssea e interrompe a progressão da leucemia.
O ATRA é administrado por via oral e tem início imediato assim que se suspeita da LPA, antes mesmo da confirmação diagnóstica definitiva. Essa conduta reduz significativamente o risco de hemorragias fatais nas fases iniciais da doença.
Durante o tratamento, é comum ocorrer uma reação conhecida como síndrome do ATRA, caracterizada por febre, dificuldade respiratória, ganho de peso e acúmulo de líquido nos pulmões. Essa condição, embora potencialmente grave, é controlável com o uso de corticosteroides e suspensão temporária da medicação, se necessário.
O trióxido de arsênio (ATO) é um medicamento que revolucionou o tratamento da LPA ao atuar diretamente sobre a proteína de fusão PML-RARα. Ele provoca a degradação dessa proteína anormal, promovendo a maturação e a apoptose (morte celular programada) das células leucêmicas.
O ATO é administrado por via endovenosa e apresenta alta taxa de eficácia, especialmente quando usado em associação ao ATRA. Esse regime livre de quimioterapia é atualmente o tratamento de escolha para pacientes de risco padrão, proporcionando taxas de cura superiores a 90%.
Nos casos de maior risco, em que o número de leucócitos é muito elevado, o tratamento deve incluir quimioterapia associada (antraciclinas), porém em quantidade muito menor do que a dos esquemas tradicionais com quimioterapia e ATRA.
A monitorização molecular da fusão PML-RARα por técnicas de PCR (reação em cadeia da polimerase) é essencial durante e após o tratamento, permitindo detectar recidivas precoces e garantir o controle completo da doença.
A Leucemia promielocítica aguda (LPA) é um exemplo notável de como o avanço da biologia molecular transformou completamente o tratamento das leucemias. Antes considerada uma das formas mais letais, hoje é uma doença altamente curável, desde que diagnosticada e tratada rapidamente.
Infelizmente a utilização de terapias direcionadas com ATRA e ATO ainda não é amplamente disponível No entanto, os esquemas tradicionais com quimioterapia também apresentam alta taxa e cura, porém com maior quantidade de efeitos colaterais.
O sucesso terapêutico da LPA depende da agilidade no reconhecimento clínico e do acompanhamento com um hematologista. O diagnóstico precoce, aliado ao monitoramento molecular, permite alcançar altas taxas de remissão e cura duradoura.
Em Goiânia, o Dr. Rodrigo Brum atua com foco no tratamento e acompanhamento de pacientes com leucemias agudas, incluindo a LPA, com base nas mais recentes evidências científicas e protocolos internacionais.
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